Nos últimos anos, a magistratura brasileira vem perdendo totalmente a credibilidade e, nos últimos meses, com escândalos como a participação direta de ministro da mais alta corte do Judiciário, o Supremo Tribunal Federal (STF), envolvido com pessoas líderes de crime organizado, esse crédito acabou completamente.
Para piorar, nos últimos meses, magistrados, desde juízes de primeira instância até desembargadores e ministros do STF, passaram a insistir publicamente que continuam “ganhando pouco”, enquanto seus contracheques revelam cifras que a maioria dos brasileiros jamais verá na vida. A falta de vergonha em externar tais argumentos chega a ser inacreditável.
Nesta semana, foi a desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará. Em sessão pública, ela chegou a afirmar que magistrados estariam caminhando para um “regime de escravidão” se benefícios remuneratórios fossem cortados, e alegou que colegas estariam deixando de ir ao médico ou tomar remédios por conta de dificuldades financeiras. A fala foi feita enquanto ela própria registrava um contracheque líquido de cerca de R$ 91 mil em um único mês, com rendimentos brutos que ultrapassaram R$ 117 mil, projetando uma renda anual superior a R$ 1 milhão, valores que a esmagadora maioria dos brasileiros nunca alcançará, mesmo trabalhando a vida toda.
Antes dela, não foi raro ouvir discursos semelhantes, inclusive do próprio Alexandre de Moraes, o manda-tudo no Brasil atual, quando disse que juízes merecem “uma remuneração mais digna” e apoiou a volta de adicionais por tempo de serviço, sendo aplaudido por membros da magistratura. O salário-base de um ministro do STF é de R$ 46.366,19, mas é apenas a parte visível de um sistema que permite acréscimos e “penduricalhos” acima do teto constitucional. Sem citar contratos dos escritórios de esposas, filhos e irmãos com todo tipo de criminosos, recebendo valores de milhões mensais.
No caso do filho, e, por infelicidade nossa, é filho do ministro piauiense Kássio Nunes Marques, o “menino” tem apenas 25 anos de idade e 1 ano como advogado, mas é filho do ministro, e isso serve como apresentação para seus serviços advocatícios. O garoto recebeu 18 milhões de reais em curto espaço de tempo de empresas como a JBS. Sim! Aquele grupo dono da Friboi da Lava Jato, lembra? Cujos irmãos Batista confirmaram propinas e foram presos. Pois é. Lembrando que a declaração legítima do rapaz é que o faturamento do seu escritório era de apenas R$ 25,5 mil.
Esse tipo de postura do Judiciário tem se tornado quase rotineiro: eles se metem em escândalos, cobram melhores salários e, quando recebem críticas, ainda as classificam como ataques às instituições, à democracia e outras falas já cansadas para criar uma narrativa, ao mesmo tempo em que embolsam cifras que os colocam na elite econômica do mundo. Em um julgamento sobre o fim de “penduricalhos”, por exemplo, a juíza aposentada aos 59 anos [e presidente da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho] Cláudia Márcia de Carvalho Soares afirmou que desembargadores “mal têm um lanche” ou carro, mas os dados mostram que ela mesma recebeu R$ 709 mil em salários líquidos em 2025, com um mês chegando a cerca de R$ 128 mil, enquanto fazia essa crítica.
É importante destacar que o Brasil tem um problema sistêmico com supersalários no serviço público. Países com sistemas mais transparentes e rígidos de remuneração não toleram que servidores ganhem acima do teto constitucional, que, no Brasil, equivale ao subsídio de ministros do STF (R$ 46.366,19). Os chamados “penduricalhos”, porém, permitem que magistrados e outros servidores ultrapassem esse limite com uma série de verbas extras classificadas como indenizatórias ou gratificações, criando uma realidade em que dezenas de milhares de funcionários públicos recebem mais do que deveriam. E, em muitíssimos casos, mais do que merecem.
Esses valores são uma aberração se comparados com a realidade de profissões essenciais no país. No Brasil, o piso nacional do magistério da educação básica foi fixado em cerca de R$ 5.130,63 para jornada de 40 horas semanais em 2026, um patamar de renda que, em muitos estados, é a principal garantia de subsistência para professores que dedicam anos de estudo e trabalho à formação das novas gerações, inclusive dos futuros magistrados.
Ou seja, a mesma sociedade que paga, mesmo que indiretamente, milhões a um magistrado que entrou no STF sem concurso público, sem esforço, paga quase nada a profissionais que lidam diretamente com a educação pública em condições muitas vezes precárias. Essa disparidade não é apenas uma questão técnica: é um sintoma de uma profunda desconexão entre parcela do Judiciário e a realidade do Brasil.
E, se isso não bastasse, parte dessa elite judicial insiste em se colocar como vítima de um sistema em que, para cada magistrado, há milhares de carreiras essenciais (professores, enfermeiros, assistentes sociais, policiais civis, trabalhadores da saúde e tantos outros) que também exigem estudo, dedicação e concursos públicos, e que não ganham nem de longe cifras comparáveis.
Quando a defensiva corporativa se torna a narrativa dominante e se transforma em ataques ao debate público legítimo sobre privilégios e desigualdades, então podemos, de fato, dizer que muitos magistrados perderam a vergonha. Não apenas em relação à remuneração que já desfrutam, mas, sobretudo, em relação ao dever de se colocar como servidores do Estado de Direito e da população, e não como uma elite acima dela.




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