Um advogado que hoje defende quem mata bandido pode ser o mesmo que amanhã estará defendendo o próprio bandido. A frase, embora incômoda para alguns, traduz uma realidade essencial da advocacia: a defesa não é, e não deve ser, um exercício de juízo moral, mas de garantia de direitos.
Ainda assim, o problema não está no ato de defender, que é legítimo, constitucional e indispensável ao funcionamento da Justiça. O ponto sensível surge quando esse mesmo profissional, que transita entre casos de naturezas tão distintas, passa a emitir julgamentos públicos carregados de valor moral sobre situações semelhantes às que ele próprio atua. É aí que se instala a contradição.
Não é difícil perceber o risco dessa seletividade. Em um momento, sustenta-se, ainda que de forma indireta, a ideia de que a morte de um criminoso pode ser compreensível diante de um ato violento, como o roubo de um carro. Em outro, defende-se com afinco um acusado de crimes complexos, como lavagem de dinheiro para o tráfico de drogas, exigindo, com razão, o respeito às garantias legais e à presunção de inocência.
Ambas as posições, isoladamente, podem encontrar respaldo jurídico. O ordenamento prevê teses de legítima defesa, assim como assegura o direito à ampla defesa em qualquer acusação criminal. O que se torna problemático é a tentativa de sustentar discursos moralmente rígidos em público, enquanto, na prática profissional, esses mesmos valores se mostram flexíveis conforme o caso ou o cliente.
A advocacia exige técnica, não paixão seletiva. Exige coerência institucional, ainda que não necessariamente ideológica. Quando um advogado assume o papel de julgador na arena pública, atacando até mesmo veículos de comunicação quando estes não lhe agradam, corre o risco de comprometer a própria credibilidade, sobretudo quando suas falas não resistem ao confronto com sua atuação concreta.
Por isso, talvez o caminho mais prudente seja reconhecer os limites do próprio papel. Defender não é endossar. E criticar exige consistência. Afinal, ao transformar casos complexos em narrativas simplistas de “mocinhos” e “bandidos”, corre-se o risco de cair exatamente naquilo que se pretende condenar: a hipocrisia.



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